segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Desabafo


Não tenho tempo para heróis
(com “H” maiúsculo e dourado)
Nem para as frágeis vítimas
do mundo cruel em que foram largados.

Desconfio dos que não sonham,
Dos que sorriem de mais
Dos que não olham nos olhos
Dos que esperam de mais
!sentados!

Tenho pena, da enfadonha raça
Dos que morrem todo dia
Pelos mesmos motivos banais
dos que estão certos de tudo
dos que nem sabem mais.

Se preocupam comigo
e não vivem pra nada mais.

Desculpe.
Até mais.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Julgamento


-Réu, apresente-se a corte.

-Me chamo Amor vossa excelência.

-Está sendo julgado por um crime hediondo de homicídio.
O Sr. confessa estar presente na data e no local em que o crime foi cometido?

-Confesso excelência.

-E as evidências apresentadas e encontradas no local do ocorrido, pertencem ao Senhor?

-Sim excelência, tanto o vinho quanto a adaga.

-Estava sozinho quando cometeu este ato?

-Não excelência, andava com o ciúmes e com a raiva.

-Pelos poderes investidos em meu nome, e com a presença desta corte, informo ao réu que o voto das testemunhas foi unânime, sendo o réu Amor, considerado culpado, a sentença será um sofrimento manso e cálido em regime perpétuo.
O que o Réu alega em sua defesa?

-Sou cego.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

(des)entendimento


Assustei com a voz,
até duvidei que fosse minha.
Saiu desafinada, estrangulada, gritada
nem eu a entendia,
palavras quebradas em lugares estranhos, trêmulas,
e então, o silêncio...
desconcertante e ensurdecedor, silêncio.
Ao fundo, uma amostra barata e difusa do que fui,
jogado em minha cara sem prévio aviso.
Soluços abafados pelo travesseiro,
e mal iluminados por um néon triste e solitário da cidade a madrugar.
Nas mãos a incerteza
no coração um resquício de esperança
e nos olhos, além de lágrimas,
o reflexo de uma garota que desaprendeu como sonhar.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Cada gotinha tímida daquela chuva mansa desejava me encharcar

me entreguei

deitada na grama gelada, era outono

ao lado da cesta do café que tomamos, mais cedo

Respirava fundo, e sentia de olhos fechados minha pele a se texturizar,

leves arrepios surgiram pelo frescor do cair da noite.

E sorria... um sorriso tranqüilo, de quem não tem pressa, nem pretensão

Só sente e deixa transmitir pela boca

a paz que vem da alma.


sexta-feira, 23 de março de 2012

pela casa


Num canto da casa eu esqueci o amor que me foi dado
Em outro encontrei o amor que roubei
Deixei pegadas, dos pés descalços
E marcas de mãos nas paredes que me apoiei
No guarda roupa, tinha uma cartola
Costumava fazer brotar flores imaginárias
as mesmas que eu não recebia
as mesmas que eu ansiava.
Cansei de tentar imaginar como poderia ter sido,
caso eu tivesse ousado mais
Ousarei hoje, e quem sabe
Daqui a um tempo, ao abrir o guarda roupa
Eu morra soterrada por flores...reais

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Gin


Tamanho foi o baque

que despertou um desejo cego de sobreviver.

Tamanho foi o gole

que perdeu a seriedade, e focou o copo.

Quis viver com a intensidade que lhe fora negada

E sorrir com a alegria de uma mulher amada

mesmo não sendo amada.

Reclinada sobre a mesa

viu seu rosto refletido no líquido ilusório

viu a maquiagem borrada,

o suor e a lágrimas.

E viu claramente

a face do que se tornara

Uma mulher em desespero

a procura de uma felicidade

que não cabe num copo de gin.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Tattoo

A agulha rasga a pele
A tinta misturada ao sangue
Forma uma cor linda
E mancha minha roupa

E me dói o ouvido
E me agonia a alma
E me arrepia a nuca

Espasmos involuntários

Mãos de artista
Arte pronta
Moldura feliz

Ei-la